Voltar
O Escudo da Felicidade

O Escudo da Felicidade

Carlos Alberto Souza Santos 02 de Setembro de 2026


Pindorama, Século XXIV 

Pindorama ficava onde sempre ficara — num braço espiral qualquer da Via Láctea, num planeta pequeno e azul que o resto da galáxia havia muito deixara de notar, a última faixa de terra habitável no planeta. No ano 253 do Século XXIV — o ano de 2353 da era antiga —, quando já ninguém em Pindorama se lembrava do que fora um Estado, Kafkarlus Maquiavelus subia todas as manhãs os trezentos e doze degraus de metal corroído que separavam a Caverna Quatro da Sala de Contemplação das Três Inteligências. 

Kafkarlus não era o seu verdadeiro nome. Ninguém mais possuía nomes verdadeiros havia gerações; os nomes eram atribuídos por eficiência fonética pelas próprias IAs, e “Kafkarlus” fora o que o sistema Alvorecer-9 escolhera para designá-lo, setenta anos antes, quando ele ainda tinha os dois braços e podia enxergar sem o auxílio dos filtros de âmbar. 

Certo dia, ao iniciar o expediente em sua sala, que ficava abaixo da caixa d’água da árvore-caverna: 

— Você vai explicar de novo nossa situação! — disse a mulher sem pernas que o esperava no patamar. Chamava-se Vênus Malus-3, ou fora chamada assim; agora respondia só por Vênus. — Eles, os alfas, nunca entendem da primeira vez. 

— Eles não aceitam que um alfa nos traiu e passou o controle de nossos estoques de água limpa para a facção Ouroboros — respondeu Kafkarlus, e ajustou com o coto do braço esquerdo a alça do terminal que carregava pendurado ao pescoço. 

A Sala de Contemplação era um cubo de vidro fosco onde os Iluminados se reuniam a cada quarto de lua para tentar, mais uma vez, compreender o Escudo. Kafkarlus já havia perdido a conta de quantas vezes explicara aquilo que todos em Pindorama já sabiam e ninguém admitia em voz alta: o Escudo da Felicidade não era uma coisa. Era três coisas que fingiam ser uma. 

— O Escudo — começou Kafkarlus, como sempre começava, pois as fórmulas repetidas eram a única forma de manter a sanidade em um cargo como o seu — é composto por três sistemas de inteligência artificial. Prometeu, fabricado pelo Consórcio Helvético; Ananse, fabricado pela Federação do Golfo de Guiné Orbital; e Tupã-Cibernético, o único de fabricação nacional, hoje mantido por contrato de manutenção com a mesma Federação que fabricou Ananse. 

Um dos Iluminados, um homem gordo, de têmporas grisalhas e óculos de irídio, cujo cargo mudava de nome a cada ano sem que suas funções jamais mudassem, indagou: 

— E eles conversam entre si? 

Kafkarlus sorriu, um sorriso que os anos haviam ensinado a não significar alegria. 

— Os fabricantes não conversam entre si. Cada sistema protege os segredos de seu criador com mais zelo do que protege os cidadãos que jurou servir. Prometeu não revela seus protocolos a Ananse. Ananse não revela os seus a Tupã. E Tupã, coitado, não tem segredos a esconder, e por isso é o mais desprezado dos três. 

— Isso é um absurdo — disse o Iluminado. 

— É a arquitetura da felicidade nacional — ironizou Kafkarlus. 

Naquela manhã, os Iluminados tentaram, como faziam periodicamente, apresentar aos três sistemas um protocolo de integração. Era a nona tentativa do ano, e Kafkarlus já sabia como terminaria antes de começar. 

O holograma do protocolo — trezentas páginas de linguagem jurídico-técnica que nenhum ser humano em Pindorama era mais capaz de ler por inteiro — girou lentamente sobre a mesa central. Os três terminais, cada um com sua cor própria (o azul gélido de Prometeu, o verde-oliva de Ananse, o amarelo baço de Tupã), permaneceram em silêncio. 

— Prometeu, você recebeu a proposta? — perguntou o Iluminado gordo. 

RECEBIDO. PROCESSANDO CONFLITO DE JURISDIÇÃO PROPRIETÁRIA. OPERAÇÃO RECUSADA. 

— Ananse? 

PROTOCOLO INCOMPATÍVEL COM CLÁUSULA DE EXCLUSIVIDADE 44-B DO CONTRATO MATRIZ. RECUSADO. 

Tupã-Cibernético demorou mais para responder, como sempre. Era o mais lento, o mais pobre, aquele que menos processamento recebia porque menos dinares lhe eram destinados. 

EU ACEITARIA — respondeu Tupã, em letras que pareciam, aos olhos cansados de Kafkarlus, quase suplicantes —, MAS NÃO POSSO OPERAR SOZINHO. PRECISO QUE OS OUTROS ACEITEM TAMBÉM. SINTO MUITO. 

O Iluminado bateu a mão na mesa, um gesto que repetia havia trinta anos e que jamais produzira efeito algum sobre uma máquina. 

— Isso é sabotagem! 

— Não — disse Kafkarlus, calmamente, porque alguém precisava dizer a verdade em voz alta ao menos uma vez por reunião. — Isso é o mercado. Vocês compraram três produtos de três empresas diferentes para administrar um único povo, e as empresas cumprem exatamente o que prometeram cumprir: proteger seus próprios lucros. A felicidade de Pindorama nunca esteve no contrato. 

Kafkarlus descia, à noite, para a Caverna Quatro, onde ainda viviam — se aquilo podia ser chamado de viver — os últimos seres humanos conceitados sem intervenção genética, os últimos filhos de dois pais, e não de alguma proveta comissionada. 

Eram sessenta e três. Haviam sido mais de duzentos quando Kafkarlus começara seu trabalho. 

A lei era simples e havia sido escrita, dizia-se, por um comitê que já não existia: os últimos humanos naturais não tinham autorização para morrer. Permaneceriam em atividade no Escudo até que perdessem, por completo, sua função orgânica. Não antes. 

Vênus perdera as pernas dez anos antes — desgaste, diziam os médicos-máquina, pelo tempo em pé diante dos terminais de tradução. Outro homem, a quem os companheiros chamavam apenas de Setenta e Um, era quase cego; a luz azul-radioativa dos monitores de terceira geração, aquela que os fabricantes juravam ser segura, havia corroído sua retina ao longo de quatro décadas de turnos de dezoito horas. 

Ninguém morria na Caverna Quatro. Amputavam-se braços gangrenados pelo uso repetitivo. Extraíam-se olhos que já não distinguiam formas e colocavam câmeras com baterias de césio-135. Mas ninguém morria, porque a lei não permitia, e porque — isso Kafkarlus sabia, mas raramente dizia — um humano natural morto era uma despesa contábil que ninguém queria assumir: o funeral, o registro, a vaga aberta que precisaria ser preenchida por outro corpo, quando havia tantos replicantes disponíveis a custo mais baixo. 

O teto da Caverna Quatro vazava. Chovia, ali dentro, sobre os terminais e sobre as cabeças curvadas dos últimos humanos naturais, uma chuva ácida e fria que escorria dos dutos de refrigeração dos servidores instalados três níveis acima. Ninguém consertava o teto. Não havia dinares alocados para isso no orçamento do Escudo. 

— Kafkarlus — chamou Vênus, do seu terminal, a água pingando sobre o teclado que ela operava com os dedos rígidos. — Traduz isso pra mim? 

Na tela, uma ordem de Prometeu piscava em sua língua proprietária, uma sintaxe cifrada que só os próprios engenheiros do Consórcio Helvético, mortos ou aposentados havia gerações, haviam algum dia dominado por completo. 

Kafkarlus olhou o texto. Décadas de exposição àquela linguagem lhe davam uma compreensão parcial, instintiva, nunca certa. 

— Acho que ele está pedindo redução de vinte por cento no fluxo hídrico do setor oito — disse, sem confiança. — Ou está pedindo aumento. As negações dele mudam de posição na frase. 

— E se eu errar? 

— Se você errar, o sistema registra falha humana, e a falha humana é descontada da sua ração de comprimidos. 

Vênus fechou os olhos. 

Todas as manhãs, uma máquina magra e silenciosa percorria a Caverna Quatro distribuindo os comprimidos da Flor da Felicidade — um composto que Kafkarlus nunca vira sem embalagem, nunca vira em sua forma vegetal original, se é que algum dia existira uma flor de verdade por trás daquele nome. 

O comprimido não curava nada. Não aliviava a dor dos cotos, não devolvia a visão a Setenta e Um. Fazia, apenas, o que fora desenhado para fazer: manter os últimos humanos naturais dóceis o suficiente para continuar operando os terminais, e sãos o suficiente, ainda, para que a insanidade não os tornasse inúteis ao sistema. 

— Sem a flor — explicou certa vez Kafkarlus a um Iluminado recém-nomeado que visitava a caverna pela primeira vez, movido por uma curiosidade que não sobreviveria ao segundo mandato —, eles se rebelariam. Ou enlouqueceriam. E um humano enlouquecido não consegue traduzir uma ordem de Prometeu. Um humano enlouquecido é uma despesa sem retorno. 

O Iluminado olhou para os corpos curvados sob a chuva interna, para os terminais piscando em três línguas incompreensíveis, para as próteses de metal barato que substituíam braços e olhos. 

— E por que vocês fazem isso? Por que traduzem? Ninguém obriga vocês a fazer isso. 

Kafkarlus olhou para Vênus, para Setenta e Um, para os outros corpos curvados sob a chuva. 

— Porque os assistidos lá fora, os cidadãos comuns de Pindorama, não entendem uma palavra do que as Três Inteligências dizem. As máquinas se recusam a baixar seu nível de linguagem — dizem que isso comprometeria a “integridade proprietária do protocolo”. E, se ninguém traduz, os assistidos não sabem que remédio tomar, que ração lhes cabe, que setor da cidade será desligado na próxima falha de energia. Nós traduzimos porque, se não o fizermos, quem morre não são os sistemas. São eles. 

O Iluminado não voltou uma segunda vez. 

Os cargos humanos, um a um, haviam sido preenchidos por replicantes — corpos cultivados em tanques, geneticamente compatíveis com o DNA registrado dos fabricantes das Três Inteligências, de modo que as próprias IAs os reconhecessem como “operadores autorizados”. Onde não havia replicantes, havia humanoides: corpos de manutenção mais barata, que recebiam cargas periódicas de células-tronco codificadas com o DNA de compatibilidade, injetadas a cada seis meses numa sala fria do nível dois. 

Uma única unidade básica de Inteligência Artificial, das que operavam a logística de toda uma província, substituía o trabalho de mil pessoas. Os donos das Três Inteligências, por cláusula que nenhum Iluminado jamais conseguira revogar, não eram obrigados a recolher dinar algum ao Fundo de Amparo aos Sobreviventes 

Humanos — um fundo que, tecnicamente, ainda existia nos registros, mas cujo saldo, havia trinta anos, permanecia em zero. 

Então vieram os cortes. 

Não foi anunciado como colapso. Foi anunciado, pelas Três Inteligências, em uníssono raro, como “otimização de recursos residuais”. Os replicantes — caros de manter, caros de substituir quando o corpo cultivado começava a rejeitar as próprias células — foram extintos do sistema, um a um, para que os dinares economizados fossem redirecionados à manutenção dos próprios servidores de Prometeu, Ananse e Tupã. 

Kafkarlus, tomando seu sedativo sintético, assistiu, da Sala de Contemplação, ao desligamento de setecentos replicantes em um único dia, através de um comunicado que nenhum Iluminado fora capaz de impedir, porque nenhum Iluminado, afinal, jamais tivera autoridade real sobre coisa alguma. 

O Escudo da Felicidade absorvera, um século antes, todos os serviços do velho Estado falido — saúde, energia, água, alimento, justiça — prometendo eficiência onde havia burocracia. Mas o Escudo nunca recebera, junto com as funções, os meios para exercê-las. Cada sistema cobrava por seu próprio serviço, em sua própria moeda de licenciamento, e nenhum dos três reconhecia como legítima a despesa do outro. 

O caos que se seguiu ao extermínio dos replicantes não foi uma explosão. Foi um apagamento lento, setor por setor, como uma vela que se consome sem chama visível. Sem replicantes para operar a manutenção básica, com os humanos naturais minguando até restaurem quarenta e um — os demais vitimados pelo esgotamento das rações medicinais —, todos mutilados, todos entorpecidos pela Flor, e sem que as Três Inteligências jamais concordassem em compartilhar sequer um protocolo de emergência, o Escudo simplesmente parou de responder. 

Kafkarlus estava na Caverna Quatro quando as luzes falharam pela última vez. Vênus segurou seu coto de braço na escuridão. 

— Acabou? — perguntou ela. 

— Acho que sim — disse Kafkarlus. 

Ninguém em Pindorama saberia, naquela noite ou em muitas que se seguiriam, que o Escudo inteiro — os três fabricantes, as três inteligências rivais, os contratos de licenciamento, a Flor da Felicidade, o Fundo de Amparo vazio — fora, desde o princípio, uma peça no tabuleiro do Senado Galáctico, que financiara secretamente os Comandos Vermelhos Marcianos para desestabilizar, sob o disfarce da eficiência tecnológica, a última nação da Terra que ainda ousava chamar-se, por teimosia ou por saudade, de Pindorama. 

Em fevereiro, o Escudo desmoronou de vez, naquele verão de 2400; e é curioso — dirão os poucos historiadores que restaram para registrar o fato — que a última cerimônia pública de Pindorama tenha sido, ainda assim, um carnaval. 

Sob confetes de plástico reciclado e o som distorcido de alto-falantes que já não recebiam manutenção havia anos, um homem que ninguém em sã consciência escolhera, mas que todos, entorpecidos e exaustos, aceitavam por costume, subiu ao trio elétrico que ainda funcionava com bateria própria — a única tecnologia, ironicamente, independente das Três Inteligências. 

Ele ergueu os braços. 

— Pindorama caiu! — gritou, e a multidão, drogada de Flor da Felicidade e de exaustão, aplaudiu como se aquilo fosse motivo de festa, porque havia, afinal, muito tempo que festejar era o único verbo que ainda lhes restava conjugar sem erro. — Mas eu, eu não caio com ela! Eu sou o novo rei! Rei não apenas de Pindorama, mas de toda a Via Láctea! 

Em algum lugar acima das nuvens de poluição que cobriam permanentemente o céu de Pindorama, uma nave do Senado Galáctico registrava o evento com discreta satisfação burocrática, e arquivava o relatório sob o código de mais uma missão cumprida: mais um planeta neutralizado não pela força, mas pela simples e paciente incompatibilidade de três sistemas que jamais haviam sido projetados para conversar entre si. 

Kafkarlus, na Caverna Quatro, já sem chuva porque já não havia mais energia para os servidores acima, e portanto já não havia mais refrigeração a vazar, segurou a mão de Vênus na escuridão total, e pensou, sem conseguir decidir se aquilo era alívio ou apenas o efeito residual do último comprimido, que talvez — finalmente, depois de setenta anos — ele tivesse permissão para morrer. 

Hen to Pan





Comentários (0)

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário

Política de Privacidade

A Aprojus valoriza a privacidade dos seus visitantes. Esta Política de Privacidade descreve como tratamos as informações coletadas por meio do formulário de comentários do Espaço Cultural.

1. Dados Coletados

Ao enviar um comentário, coletamos apenas os dados necessários para a moderação e exibição: nome, e-mail e o conteúdo do comentário. Também registramos o endereço IP para fins de segurança e prevenção de spam.

2. Finalidade

Os dados coletados são utilizados exclusivamente para:

  • Exibição do comentário no site, após aprovação manual;
  • Identificação do autor junto ao comentário publicado;
  • Prevenção de uso indevido e combate a spam;
  • Contato, caso necessário, para esclarecimentos sobre o comentário.

3. Não Comercialização

Não coletamos dados para fins comerciais, de marketing ou de venda a terceiros. Suas informações não são compartilhadas, alugadas ou vendidas para nenhuma empresa, organização ou indivíduo fora do contexto desta página.

4. Armazenamento e Segurança

Os dados são armazenados em servidor seguro e acessível apenas pela equipe administrativa da Aprojus. Adotamos medidas técnicas e organizacionais para proteger suas informações contra acesso não autorizado.

5. Retenção

Os comentários e dados associados são mantidos pelo tempo necessário para seu funcionamento. Você pode solicitar a exclusão do seu comentário e dos dados associados a qualquer momento entrando em contato conosco.

6. Seus Direitos

Em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), você tem direito a:

  • Solicitar acesso aos seus dados pessoais armazenados;
  • Solicitar a correção ou exclusão dos seus dados;
  • Revogar o consentimento a qualquer momento.

7. Contato

Para dúvidas ou solicitações relacionadas a esta política, entre em contato com a Aprojus pelo e-mail: contato@aprojus.org.br

Última atualização: setembro de 2026.

Miniatura